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Iggy Pop faz show visceral em festival de São Paulo

novembro 9, 2009

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Marco Tomazzoni

 Planeta Terra também teve Sonic Youth, Ting Tings e os brasileiros do Copacabana Club como destaques

O festival Planeta Terra inaugurou com excelência, neste sábado (07), o Playcenter como novo espaço para shows em São Paulo. Recebendo com folga 16 mil pessoas, o local mostrou ser uma boa opção para a agenda da cidade, com uma infra-estrutura que prevê até o uso dos brinquedos do parque de diversões pelos frequentadores. Mais do que isso, abrigou apresentações memoráveis de Iggy & the Stooges, Sonic Youth, Ting Tings e os brasileiros do Copacabana Club, os destaques dos dois palcos do evento.

Diante de um público diminuto, o Macaco Bong estreou o palco principal com o volume como aliado: as caixas altas demais não deixavam ninguém indiferente ao som do trio cuiabano. Solto, o grupo passeou pelo repertório de seu primeiro disco, Artista Igual Pedreiro, rock instrumental que, no palco, combina peso com virtuose e estripulias musicais – o guitarrista Bruno Kayapy adora tocar com a guitarra no chão. Uma janela importante para uma banda que ainda precisa crescer muito.
 
Crescimento foi o que aconteceu com o coletivo Móveis Coloniais de Acaju. O octeto brasiliense abraçou o pop rock no segundo álbum, Complete, e produziu uma porrada de hits radiofônicos em potencial. O show começou com a música que mais se aproxima disso, “O Tempo”, e o público a partir daí passou a se comportar como um velho conhecido. Bastava o vocalista André Gonzáles levantar o braço para a turma do burburinho imitá-lo sem titubear.
 

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No fim da tarde, o grupo Móveis Coloniais de Acaju, de Brasília, botou público para dançar no festival

A coreografia, aliás, é ingrediente importante ao vivo – bem ensaiado, o trompetista toca com o pé, enquanto as teclas do saxofone são apertadas por um com o fôlego de outro. Brincadeira que ajuda ainda mais a ganhar a simpatia do público, condicionado desde o início, mesmo com o sol forte, a se jogar no carnaval fora de época no qual o Móveis é especialista. “Falso Retrato”, “Cheia de Manha” e a arrasa-quarteirão “Sem Palavras” atraíram ao palco as pessoas que chegavam ao Playcenter, e as outras que já estavam lá comemoravam com pulos e dedos para cima.
 
Para fechar a apresentação, “Copacabana”. Apesar do nome, o que se viu foi uma espécie de festa cigana: os sopros foram para o meio do público e formaram uma roda para tocar um som festivo como o dos Balcãs. Os fãs deliraram. Pode não ter sido a roda de tamanho recorde como o grupo queria, mas encaminhou o show para um final emblemático. Quem não conhecia o Móveis certamente não vai esquecer.

Mais do mesmo

O mesmo não se pode dizer do Maxïmo Park. Representante do novo rock britânico, o quinteto fez barulho com o álbum de estreia, A Certain Trigger (2005) e, embora tenha seguido pelo mesmo caminho com Our Earthly Pleasures (2007), lançou este ano o insípido Quicken the Heart. A participação no festival não melhorou muito essa impressão e a banda passou quase batida pelo palco principal.
 
O vocalista Paul Smith se esforçou. De chapéu, como sempre, deu chutes no ar, dançou, brincou com o pedestal do microfone e fez o dever de casa, decorando algumas palavras em português: além do tradicional “obrigado”, arriscou a frase “esta é a nossa primeira vez no Brasil”. Músicas como “Russian Literature” e “Apply Some Pressure” foram comemoradas pelos fãs no gargarejo, mas o resto da plateia, bem maior do que no início da tarde, não se empolgou muito.
 
Isso porque o Maxïmo Park faz um som dançante e a luz do dia – e o palco gigantesco – não ajudavam muito a criar o clima de balada necessário para engolir o repertório com maior facilidade. A balada “Acrobat”, então, inspirada em U2 e com ecos no vocal, só aumentou os bocejos. A coisa começou a mudar quando Smith anunciou: “temos um bom catálogo de músicas pop, mas essa é um rock”. A intenção era tocar “Our Velocity”, um dos melhores singles do grupo, mas um problema no teclado fez com que ela viesse só duas faixas depois.

“Going Missing”, do primeiro disco, veio na sequência e foi de longe o momento mais iluminado do show. Era a prova de que é no seu “catálogo rock” que o Maxïmo Park dá sinais de vida, e eles sabem disso, pois foi com “Girls Who Play Guitars”, outro belo exemplo dessa coleção, que fecharam a noite. Mas foi muito pouco. Taí uma banda que, se não mudar de rumo, vai entrar para o time dos fadados ao ostracismo.

Sucessos em noite ruim

O Primal Scream também vive um momento delicado. Seu nono disco, Beautiful Future, do ano passado, é, segundo o próprio grupo, seu trabalho mais pop, mas foi um fracasso de vendas e crítica. Restou ao grupo escocês usar a turnê para apresentar um “greatest hits” da carreira e, a princípio, a tática não tinha como dar errado. Não foi bem assim.

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O vocalista do Primal Scream, Bobby Gillespie, comandou a banda em noite pouco inspirada

Intocado pelo tempo, com o mesmo rosto e cabelo que mostrou há cinco anos, em sua última passagem pelo Brasil, o vocalista Bobby Gillespie abriu os trabalhos com “Can’t Go Back”, uma das poucas faixas que se salva de Beautiful Future. A batida hipnotizante e ensurdecedora de “Miss Lucifer” apareceu em seguida e deu a entender que a noite prometia – em uma música, o Primal Scream fez mais do que Maxïmo Park em seu show inteiro.

Gillespie, porém, não estava em um dia bom, nem o resto da banda. Apáticos, o espírito era de quem estava ali só para cumprir tabela. O sinal veio claro em “Exterminator”, do celebrado disco XTRMNTR (2000). O grupo tentou tocar uma vez e parou pela metade. Na segunda, foi um pouco mais longe, mas desistiu novamente. O lendário baixista Mani murmurou “fucking” alguma coisa no microfone. Desagradável.

Mais para frente, os hits “Movin’ on Up” – sucesso de Screamadelica (1991) – e “Rocks” – deliciosa, puro Rolling Stones – melhoraram um pouco as coisas, tanto que o público reagiu como deveria, ruidosamente. Com menos de uma hora no palco, a quase punk “Skull X” marcou a despedida do Primal Scream do festival. O grupo saiu de cena sem dizer palavra ou olhar para trás.

Mestres do barulho

Nome fundamental do rock alternativo norte-americano e campeão de camisetas vistas pelo festival, o Sonic Youth já tem quase três décadas de estrada, impressos nos cabelos brancos e rugas de seus integrantes. Isso só ajuda a respeitar essa entidade, que fez o melhor show do Planeta Terra e um dos destaques do ano em São Paulo.

Um dos casais mais bem sucedidos e longevos do rock mundial, a baixista Kim Gordon e o guitarrista Thurston Moore fazem, ao lado de Lee Ranaldo, Steven Shelley e Mark Ibold (ex-Pavement), barulho como poucos. E se esse barulho sair, então, do repertório de The Eternal, o álbum que a banda lançou este ano, melhor ainda.

O disco dominou a apresentação, que teve um diferencial importante. Com a entrada de Ibold no grupo, Kim passa a maior parte do tempo tocando guitarra. São três delas, portanto, para cimentar uma massa sonora difícil de competir com qualquer outra ao vivo. Nem a chuva que começou a cair e continuou sem trégua diminuiu essa impressão.

Vestindo um microvestido prateado e luvas na mesma cor, Gordon não aparenta nem de longe seus 56 anos de idade. Com o cabelo sempre caindo nos olhos, ela brilhou no palco, seja dando gritos guturais em “Calming the Snake” ou gemendo em “Anti-Orgasm”, dois belos momentos da noite.

Do álbum Daydream Nation (1988), um dos pontos altos da carreira do Sonic Youth, apareceram “Hey Joni” e “Cross the Breeze”. Aqui, a bateria primal de Shelley deixou as faixas com um peso absurdo, que não faria feio ao Slayer. A impressão que se tem é a de cinco amigos tocando na garagem de casa, felizes, sem se importar com mais nada. Uma entrega bonita de se ver.

A explosiva “Death Valley 69” fechou a noite com Thurston, Kim e Ranaldo nos vocais e todo mundo jogando seus instrumentos no chão no final para brincar com a distorção e ruídos que isso ia provocar. “Obrigado pela noite adorável”, agradeceu Thurston. Obrigado a você.

Invasão do palco

Principal atração da noite, Iggy Pop veio liderando os Stooges com a missão de tocar Raw Power (1973), o terceiro e mais agressivo disco do grupo. Como de costume, Iggy estava sem camisa, cabelos louros compridos e completamente fora de si. “Raw Power” abriu o show, “Kill City” veio na sequência, mas foi com “Search and Destroy” que o mundo veio abaixo: rodas de pogo se espalharam feito fogo, o público cantou e pulou muito. Sublime.

Iggy é a prova viva de que não se fazem mais performers como na década de 1970. Aos 62 anos, ele continua naquela forma espantosa que lhe permite rebolar como uma odalisca, contorcer-se sem dó e ficar atirando o pedestal do microfone de um lado para o outro na melhor linha rockstar. Ele não é mais um garoto, é verdade. Uma certa barriguinha finalmente começa a aparecer e o cansaço é evidente – Iggy bebe muita água, se senta e se apoia quando dá, tentando não dar muita bandeira. Mas quando menos se espera, ele levanta de um salto e começa tudo outra vez. Visceral é pouco.

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Aos 62 anos, Iggy Pop continua com forma espantosa e pique de fazer inveja a qualquer garoto

Depois de “Gimme Danger”, Iggy disse ao microfone, ao introduzir “Shake Appeal”: “estou me sentindo sozinho, vamos chamar um pessoal para subir aqui”. Não demorou muito para 80 pessoas pularem no palco, enquanto outras ainda tentavam chegar lá. O tumulto era bem o que Iggy esperava e a anarquia foi bastante celebrada. Na hora de ir embora, obviamente tinha quem não quisesse descer. Na ânsia de conter um fã mais afobado, os seguranças acabaram fazendo com que ele desmaiasse. O rapaz saiu de cena carregado.

Tudo muito rock ‘n’ roll, mas atitude, claro, não é tudo. Ao contrário de Iggy, os Stooges não têm aquela forma de antes e as versões ao vivo soam mais lentas e emboladas, por mais que a banda seja a mesma – Steve Mackay no sax, Scott Asheton na bateria e o guitarrista James Williamson no lugar de Ron Asheton, morto no início do ano (Mike Watt, no baixo, completa o grupo). Além disso, Iggy é o líder inconteste: ele decide na hora o repertório e vai norteando a apresentação.

“Funhouse”, “Skull Ring” e “Johanna” – com Iggy cantando na grade, erguendo a muleta de alguém no ar – também deram o ar da graça, mas foi a saída para o bis que transformou o público em bicho. O cantor posou de cachorro e rolou no chão para defender “I Wanna Be Your Dog”, a música mais celebrada do show, que provocou catarse na plateia.

Iggy voltou encharcado para o palco e com a calça no mínimo 10 centímetros mais baixa do que deveria, cantou “Five Foot One”, “The Passenger” – sucessos de sua carreira solo – e “Death Trip”. De novo na grade, percebeu que a banda tinha ido embora e gritou: “Onde vocês estão? Voltem, porra!”. Era hora da despedida com o hit “Lust for Life”. Cansado, ovacionado, Iggy fingia arrancar pedaços do peito e os jogava para o público, metáfora do que acabara de acontecer. Por fim, foi embora e, a caminho dos bastidores, abaixou totalmente a calça. Ninguém esperava outra coisa.

 Fonte: IG

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