A “jam session” de Jimi Hendrix em Woodstock

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Durante três dias do mês de agosto de 1969, dezenas de artistas se reuniram para o maior festival de rock até então. Realizado na cidade rural de Bethel, próxima de Nova York, o evento ocupou uma área de 2,4 quilômetros quadrados e simbolizou a contracultura do final dos anos 60 e início dos 70, bem como a “era hippie”. O público estimado foi de 500 mil pessoas e, até hoje, o festival é celebrado pelos amantes do rock, tendo inclusive sido citado pela Rolling Stone como um dos 50 momentos que mudou a história do rock n? roll.

Entre os dias 16 e 18 de agosto, uma forte chuva castigou o público presente ao festival, que teve shows de artistas como Janis Joplin, The Who, Santana, Joe Cocker, Canned Heat e Crosby, Stills, Nash & Young. O guitarrista Jeff Beck também ia tocar, mas desistiu. Sem Beck, o principal guitarrista a brilhar em Woodstock acabou sendo Jimi Hendrix, que, devido aos longos atrasos entre as apresentações, só pôde iniciar o seu show às nove da manhã (?!?) do dia 19 de agosto, uma segunda-feira.

Os hippies topavam tudo, mas somente 25 mil pessoas agüentaram a maratona para presenciar o concerto de Hendrix, que recebeu o maior cachê do festival: 18 mil dólares pelo show e mais 12 mil pelos direitos de filmagem.

Jimi Hendrix havia dispensado o seu primeiro trio (Jimi Hendrix Experience) poucas semanas antes do show em Woodstock. A última apresentação do trio foi no Denver Pop Festival, dois meses antes de Woodstock. Talvez por esse motivo, o locutor oficial do festival, MC Chip Monck, tenha anunciado erroneamente, antes do show, o nome da Jimi Hendrix Experience.

A nova banda de Hendrix era formada por Billy Cox (baixo), Mitch Mitchell (bateria), Larry Lee (guitarra base), Jerry Velez e Juma Sultan (ambos na percussão), ou seja, uma mistura da Gypsy Sun e do Rainbows. Segundo o guitarrista, o sexteto nada mais era do que a Band Of Gypsys, nome de sua futura banda. E a explicação é simples: a estridente guitarra solo de Hendrix acobertava a guitarra base de Larry Lee, e as porradarias do baterista Mitch Mitchell não davam vez para os pobres percussionistas. De qualquer forma, e isso é inegável, como pode ser observado em diversos momentos do show, essa “banda provisória” fez com que Hendrix se reencontrasse com o blues e o rhythm and blues.

Com tanta novidade, o show de Jimi Hendrix em Woodstock pode ser considerado “caótico”, no melhor sentido da palavra. Foram pouco mais de duas horas de show (o mais longo da carreira do guitarrista), que, na verdade, se constituíram em uma grande “jam session”. Aproveitando a nova formação de seu conjunto, Hendrix aproveitou para testar novas possibilidades, e até mesmo, voltar a tocar o blues “Hear My Train A Comin”, que estava fora do repertório de seus shows havia mais de dois anos. O guitarrista também compôs o rockão “Izabella”, justamente para o festival. “Villanova Junction”, um blues instrumental, também era praticamente inédita, eis que composta em maio de 69. Aliás, a introdução da apresentação, com a funkeada “Message To Love”, já mostrava que aquele show não seria igual aos outros.

Hendrix também testou novas sonoridades, como em “Jam Back At The House”, uma espécie de “fusion”, na época em que esse gênero musical sequer existia. E ainda fez uma improvisação (previsivelmente intitulada de “Woodstock Improvisation” no CD e DVD que registram a apresentação), durante a qual, a sua guitarra só faltou pedir arrego.

Mas, como não poderia deixar de ser, Jimi Hendrix apresentou os seus sucessos (que já podiam ser chamados de clássicos, apesar da pouca idade), como “Red House” (executada por Hendrix mesmo com uma corda de sua guitarra arrebentada), “Foxey Lady” (em uma versão, mais uma vez, “caótica”), “Fire” (alguém conseguiu ouvir os percussionistas?), “Purple Haze” e “Hey Joe”, esta última, já no bis, foi o último suspiro do festival de Woodstock.

Apesar dos sucessos, duas outras canções podem ser consideradas os grandes momentos do show. A introdução com a guitarra “wah wah” em “Voodoo Child (Slight Return)” foi a deixa para uma arrepiante versão com quase quinze minutos de duração. E o hino dos Estados Unidos (“Star Spangled Banner”), apresentado logo em seguida, foi a fecho de ouro do festival (e do fim da década de 60), com a estridente guitarra de Jimi Hendrix chorando misturada ao som da bateria e das percussões, que mais pareciam bombas explodindo na Guerra do Vietnã.

Talvez a melhor síntese da apresentação de Jimi Hendrix no festival de Woodstock tenha sido feita pelo jornalista David Fricke, que soube expor, como ninguém, a fase que o guitarrista passava em sua carreira. “Woodstock não foi o melhor show de Hendrix, mas foi o seu mais honesto. Tudo o que estava certo, errado e sem resolução sobre a sua música e sua carreira, veio à tona naquele show, sem pedido de desculpas. Jimi Hendrix queria fazer música tão profunda quanto o oceano, tão grande quanto o céu, e tão real quanto a sua vida. Aqui está como ele tentou fazer tudo isso em apenas uma manhã, ao final de um longo e estranho fim de semana em agosto de 1969”.

Se quiser comprovar, corra e coloque o DVD para rodar. Mas, de preferência, em um sábado à noite…  
 


Fonte: Esquina da Música

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