“A Peleja do Diabo Com o Dono do Céu”: a obra-prima de Zé Ramalho

 
Em 1974, Zé Ramalho já havia participado da banda The Gentlemen, bem como gravado o antológico “Paêbirú”, ao lado de Lula Côrtes. Dois anos depois, quando chegou ao Rio de Janeiro, Zé Ramalho da Paraíba (como era conhecido), já era um compositor de mão-cheia, com sucessos na cartola, como “Vida do Sossego” e “Chão de Giz”. No mesmo ano, conheceu o produtor Carlos Alberto Sion e gravou uma demo. Entretanto, as gravadoras não se interessaram no som não muito convencional de Ramalho.

Mas quando diretor de televisão Augusto César Vanucci mostrou a canção “Avôhai” para a sua esposa, a cantora Vanusa, as coisas começaram a mudar de figura. Com a gravação de Vanusa, e uma forcinha de seu amigo Fagner, Zé Ramalho foi contratado pela gravadora CBS (atual Sony/BMG). Daí, foi só Zé Ramalho entrar em estúdio e gravar o seu primeiro álbum solo, que levava o seu nome no título. “Zé Ramalho”, que foi lançado em 1978, trazia sucessos “místicos”, como “Avôhai” (agora, finalmente, gravado pelo seu compositor), “A Dança das Borboletas” e “Chão de Giz”.

No ano seguinte, Zé Ramalho entrou em estúdio para gravar “A Peleja do Diabo Com o Dono do Céu”. No entanto, as canções viajantes do primeiro disco deram lugar a algo mais politizado. Em razão disso, esse novo álbum, que contava com uma foto na capa do compositor ao lado do cineasta Zé do Caixão e da atriz Xuxa Lopes, em uma imagem de cordel, trazia canções que chegaram até a incomodar um pouquinho o governo militar, como “Admirável Gado Novo” e a própria faixa-título.

Extremamente bem produzido (mais uma vez, Carlos Alberto Sion foi o responsável), o álbum rendeu a Zé Ramalho o seu primeiro disco de ouro. Naquela época, o paraibano já estava compondo canções para os discos de colegas como Elba Ramalho, Fagner e Geraldo Azevedo.

A abertura de “A Peleja do Diabo Com o Dono do Céu”, exatamente com a sua faixa-título, já resumia bem a proposta do trabalho. Sob uma sonoridade que era capaz de misturar todos os elementos típicos da música nordestina (xote, xaxado, baião e o que mais aparecesse), Zé Ramalho destilava fortes críticas sociais: “Com tanto dinheiro girando no mundo / Quem tem pede muito, quem não tem pede mais / Cobiçam a terra e toda a riqueza / Do reino dos homens e dos animais / Cobiçam até a planície dos sonhos / Lugares eternos para descansar”. “Admirável Gado Novo”, que mistura zabumba, ganzá e triângulo a um sofisticado arranjo de cordas de Paulo Machado, literariamente, vai pelo mesmo caminho (“O povo foge da ignorância / Apesar de viver tão perto dela / E sonham com melhores tempos idos / Contemplam essa vida numa cela / Esperam nova possibilidade / De verem esse mundo se acabar”).

A grave “Falas do Povo”, uma espécie de “marcha fúnebre nordestina”, é outra que expõe bem as mazelas do povo daquela região. A autobiográfica e pungente “Garoto de Aluguel (Taxi Boy)”, por sua vez, fala de um trabalho que Zé Ramalho teve que fazer logo que chegou, sem dinheiro, ao Rio de Janeiro: “Minha profissão é suja e vulgar / Quero um pagamento para me deitar / Junto com você estrangular meu riso / Dê-me seu amor que dele não preciso”. Musicalmente, essa canção é a que mais destoa do álbum todo. Nela, Ramalho acompanhou-se apenas por uma orquestra de cordas. E a pesada letra acabou caindo muito bem no camerístico acompanhamento.

Mas o misticismo de Zé Ramalho também estava presente nesse “A Peleja do Diabo Com o Dono do Céu”. E o melhor exemplo disso é a faixa “Beira-Mar”, que a despeito de sua imensa e intricada letra, fez grande sucesso quando do lançamento do álbum. O xote “Mote das Amplidões” é outra canção do álbum que vai pelo mesmo caminho, assim como “Jardim das Acácias” (uma das grandes composições de Zé Ramalho), cheia de guitarras distorcidas de Pepeu Gomes e um grandioso arranjo de cordas de Paulo Machado. A letra é mais uma pérola do cantor paraibano: “A papoula da Terra do Fogo / Sanguessuga sedenta de calor / Desemboco o canto nesse jogo / Como a cobra se contorce de dor / Renegando a honra da família / Venerando todo ser criador”.

Finalizando o álbum, além do “choro nordestino” instrumental “Agônico”, o maior sucesso da carreira de Zé Ramalho. A versão de “Frevo Mulher” constante no disco, no entanto, é um pouco diferente da festa sonora que ouvimos atualmente em seus shows. Uma verdadeira orquestra de metais (10 músicos no total), fizeram de “Frevo Mulher”, uma espécie de um “frevo-marchinha-fúnebre-de-carnaval”.

Pois é… Tempos de ditadura! Artistas inteligentes assim conseguiam dar o seu recado de alguma forma…

Faixas:
1)    A Peleja do Diabo Com o Dono do Céu
2)    Admirável Gado Novo
3)    Falas do Povo
4)    Beira-Mar
5)    Garoto de Aluguel (Taxi Boy)
6)    Pelo Vinho e Pelo Pão
7)    Mote das Amplidões
8)    Jardim das Acácias
9)    Agônico
10)    Frevo Mulher

fonte: Esquina da Música

Luiz Felipe Carneiro

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