Cuidado com a sua reputação virtual na hora de uma entrevista de emprego

Os headhunters estão com seu currículo na mão e procurando seu nome no Google; saiba o que fazer para não queimar seu filme pela internet

Renato Santiago

Você se candidatou a uma vaga em uma empresa, tinha boas indicações e um currículo caprichado. Mesmo assim não deu certo e você ficou se perguntando por quê. A resposta pode estar no Google.

Consultar a internet virou um hábito entre recrutadores e headhunters. Assim como você já deve ter feito, eles também colocam seu nome no Google para saber o que a internet diz de você.

Uma pesquisa do site CareerBuilder.com divulgada em setembro constatou que um em cada cinco executivos responsáveis por contratações em grandes empresas investiga candidatos em redes de relacionamento, como o Orkut e o Facebook. Desses, 34% declararam que já tiveram que desistir de pessoas por causa do que encontraram na internet.

Tanta gente se preocupa com isso que já surgiram até empresas especializadas em cuidar da sua reputação virtual. A norte-americana ReputationDefender.com promete monitorar diariamente o nome de seus clientes na internet e descobrir tudo o que é publicado sobre eles.

O serviço, que pode ser feito em qualquer idioma, custa US$ 9,95 mensais. Toda vez que algo indesejável for encontrado, um conselheiro da empresa orienta o cliente (no caso de o conteúdo prejudicial ter sido publicado por ele mesmo, como uma foto, comentários em fóruns) ou contata os sites responsáveis para que a informação seja destruída –o serviço adicional custa US$ 29,95. No ano passado, o faturamento da empresa foi de US$ 1,2 milhão.

“Usamos cada vez mais a internet. Acho que hoje todo mundo investiga assim, principalmente quando não temos nada além de um nome ou currículo”, diz Patrícia Epperlein, da consultoria Mariaca, que recruta executivos.

Se a internet é fonte de pesquisa para recrutadores, então é melhor tomar cuidado com o que você divulga sobre você mesmo. “Evite qualquer coisa que depuser contra você. Pense: ‘O que eu estou falando sobre mim no Orkut, no meu blog?’ Mesmo se for brincadeira, pode ser mal-interpretada. Tem muita gente careta contratando”, recomenda Epperlein.

Comportamento
Não é tão difícil assim saber o que se deve fazer ou não na internet. Se houvesse uma regra, ela certamente seria parecida com “não faça na internet nada que você não faria na rua”.

“A internet não é um mundinho isolado. Nela os padrões são iguais aos da sociedade. O profissional não pode se expor de uma maneira que não se exporia fora dela. Entrar em uma comunidade como ‘Eu odeio o meu chefe’ seria o mesmo que sair na rua com uma placa ‘eu odeio o meu chefe’. Colocar uma foto no Orkut fumando maconha seria o mesmo que fumar [maconha] na porta da empresa onde se quer trabalhar”, resume Sérgio Amad, coordenador de Recursos Humanos da FGV Projetos (consultoria da Fundação Getúlio Vargas).

O uso do Google e das comunidades sociais como ferramenta para recrutamento muda de acordo com o tipo de vaga a ser preenchida. Quando os headhunters procuram executivos, eles se voltam muito mais a comunidades especializadas em contatos profissionais, como a LinkedIn e a Plaxo, e ao Google.

Quando a procura é para funcionários de níveis hierárquicos mais baixos, aí sim Orkut e afins são vasculhados. “É uma tendência inevitável. Nesses casos, o RH ou uma empresa de seleção podem olhar as comunidades sociais. Vão ver como os candidatos estão usando a internet, se para expor suas taras e loucuras ou se a estão usando bem. O importante é que a internet é uma vitrine, então tem que ser colocado nela aquilo que interessa”, diz Mariá Giuliese, diretora-executiva da consultoria Lens Minarelli.

Se você já colocou muita bobagem na internet (usando seu nome verdadeiro, ainda por cima) e está pensando em contratar a ReputationDefender, acalme-se, pois os três consultores concordam em uma coisa: nem Google, nem Orkut nem qualquer coisa encontrada na internet deve ser o único critério para se descartar ou contratar algum profissional.

“Claro que o candidato só pode ser descartado depois do contato pessoal. A internet não prescinde da entrevista, do contato real”, diz Giuliese. Sérgio Amad concorda: “O recrutador tem que fazer um uso criterioso dessa ferramenta [internet], ver a fonte da informação, checar se ela é verdadeira. E não usar só isso. Continua necessário realizar a entrevista, ver o currículo”, afirma. “Se alguma coisa ruim é encontrada, não descarto [o candidato], fico alerta”, completa Epperlein.

Na escola
Seus hábitos na internet também podem ter efeitos na sua vida acadêmica. Nos Estados Unidos, o hábito de “googlar” candidatos a vagas nas universidades já começa a contagiar os “admission officers”, responsáveis por escolher os estudantes que serão admitidos ou não no próximo ano letivo –lá o estudante é escolhido por uma comissão que leva em conta seu desempenho no ensino médio e outras atividades desenvolvidas na vida escolar, diferentemente do vestibular brasileiro.

Uma pesquisa da consultoria de carreiras Kaplan, dos Estados Unidos, mostrou que um em cada dez recrutadores das universidades mais bem cotadas pesquisa na internet os perfis de seus candidatos. Ao todo, foram 320 recrutadores entrevistados, dos quais 12 disseram que o conteúdo dos perfis geralmente prejudica o candidato.

O baixo número de pesquisadores pessimistas, no entanto, mostra que o quadro não é tão feio assim, e que é possível também fazer a internet ajudar. Prova disso é a Zinch.com, comunidade criada por jovens que tiveram problemas para entrar nas universidades que queriam porque suas notas não eram exatamente brilhantes.

Funciona assim: o estudante monta um perfil detalhado sobre seu desempenho no ensino médio, suas idéias, suas habilidades e o que quer desenvolver na vida acadêmica. Os recrutadores então analisam esses perfis e podem conhecer mais profundamente os candidatos. Por isso o slogan do site é “I’m more than a test score” (sou mais que uma nota).

A comunidade emplacou e cerca de 600 universidades americanas usam o Zinch para avaliar estudantes — entre elas algumas das mais prestigiadas, como Yale, UCLA e Johns Hopkins.

No Brasil, como o processo seletivo é diferente, é mais difícil que aconteçam casos assim. Mas há quem se dê mal por causa do que faz na internet. A estudante Mari Conti, do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, foi advertida formalmente depois de comentar em uma comunidade de alunos da instituição no Orkut. Conti chamou a faculdade de “uma instituição que cultua uma formação rigorosa e conservadora” porque a faculdade não aceitou a invasão do campus por pichadores. A invasão era parte do trabalho de conclusão de curso de um aluno, que acabou expulso.
O que fazer para preservar sua reputação na internet

– Seja educado. Deixar recados cheios de palavrões e xingamentos em blogs alheios pega mal

– Participe de fóruns e sites sobre a sua área e sempre procure argumentar bem na hora de expor sua opinião, seja ela qual for

– Se você já colocou algo que pode depor contra você na internet, tire imediatamente

E o que não fazer
– Não faça na internet nada que você não faria na rua. Assim como é provável que você não vá trabalhar usando uma camiseta com a frase “Eu odeio minha empresa”, então não entre em uma comunidade assim

– Não use fotos comprometedoras ou de mau gosto nas redes sociais

– Não coloque seu nome em qualquer lugar. Há golpistas que pegam currículos na internet e fingem ter propostas para tirar dinheiro dos candidatos. Você pode acabar largando o seu emprego atual por uma falsa oferta

O Orkut do repórter: meu perfil fala bem de mim
Será que o problema é tão grande quanto a ReputationDefender diz? Será que eu vou ter que parar de entrar em comunidades engraçadinhas e transformar meu perfil em uma página politicamente correta e chata? Mandei meu perfil do Orkut para a consultora Patrícia Epperlein analisar, e descobri que o bicho não é tão feio quanto pintam.

Tinha certeza que algumas das minhas comunidades, como “Eu odeio plantão”, iam pesar contra mim. Mas não pesaram, porque é normal não gostar de trabalhar nos fins de semana — nem os próprios consultores gostam. Se minha comunidade fosse “Eu falto no plantão”, talvez eu tivesse problemas.

“Não se deve nunca olhar algo isoladamente. Dentro do contexto todo do seu Orkut, deu para perceber que você tem um bom senso de humor”, foi o que Patrícia me disse. Ou seja, os recrutadores não são tão CDFs para levar tudo ao pé da letra, e ainda conseguem ver o lado bom de coisas que a gente nem imaginou.

Nem as comunidades “Born to lose” e “Eu não tenho talento” pegaram mal; ao contrário, pareceram um toque divertido ao lado das outras 50 comunidades das quais participo. Resumindo, as pessoas que estão com o seu currículo na mão sabem a diferença entre o Orkut e o LinkedIn, então é só não exagerar que seu filme não vai sair queimado.

Fonte: Abril

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