TV digital faz um ano ainda cara e sem os ganhos esperados

A estréia da TV digital no Brasil completará um ano no início de dezembro. A nova tecnologia, no entanto, ainda não deslanchou. O elevado custo dos conversores de sinal — set-top box — e dos aparelhos de TV digital que permitem a alta definição da imagem são alguns dos entraves.

Por Ana Rita Marini e Candice Cresqui, no site da FNDC

A interatividade, que poderia ser o maior ganho da nova tecnologia, ainda não está disponível e, quando estiver, precisará de equipamentos certificados para a função — dos atuais, disponíveis no mercado, muitos ainda não estão preparados para receber o recurso. Enquanto isso, o público migra da TV para a Internet.

Informações do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (SBTVD), a partir de dados da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), indicam que a TV digital fechará o ano de 2008 com 645 mil telespectadores. Neste número estão contabilizados a recepção por meio de 150 mil receptores fixos, (e uma média de 3,3 telespectadores), e 150 mil receptores móveis como celulares e mini-TVs, onde apenas uma pessoa por equipamento utiliza o serviço.

No entanto, especialistas da área alertam para o fato de os conversores atuais não possuírem aplicativos para a interatividade e não permitirem atualizações, ou seja, quando a tecnologia estiver disponível, será necessário adquirir outro conversor.

De acordo com a cineasta Berenice Mendes, membro da Coordenação Executiva do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), ainda não é possível perceber mudanças concretas nas transmissões digitais por dois motivos: primeiro, porque vai demorar a se formar uma escala de mercado onde toda a população possa ter acesso aos equipamentos. Segundo, porque, para a classe média, principal usuária da tecnologia inicialmente, não há muita diferença dos serviços oferecidos por empresas como a Sky ou a Net (de TV por assinatura), que já possuem uma definição melhor de imagem e de som.

“A impressão que temos é que um instrumento que poderia ser efetivamente transformador e revolucionário é simplesmente apropriado pelo mercado, que vai utilizá-lo para maximizar os resultados do modelo comercial da televisão que eles insistem em não alterar”, lamenta Berenice.

Em São Paulo, primeira capital a ter o sistema de TV digital implementado, a desinformação quanto à forma de operação dos conversores e as áreas com baixa cobertura do sinal dificultaram o processo de adaptação à tecnologia. Em certas regiões da cidade, não há nível de recepção satisfatório, há falhas na cobertura, além de muitos usuários com dificuldades para instalar seus receptores.

Como o sinal digital é captado somente em UHF, além do set-top box é necessário uma antena interna ou externa da freqüência — lembrando ainda que a alta definição é possível apenas em televisores acima de 32 polegadas. O Fórum SBTVD realiza campanha para esclarecer os procedimentos necessários para a captação.

Sexta capital recebe TV digital

Na última terça-feira (4/11), Porto Alegre passou a integrar o grupo das capitais que já operam com o sinal digital (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia e Curitiba já transmitem com a nova tecnologia). O ministro das Comunicações, Hélio Costa, assinou termo autorizando a RBS TV, TV Pampa (Rede TV!), TV Bandeirantes, SBT, Record e TV Ulbra a digitalizarem suas transmissões a partir da capital gaúcha. Até o final do ano, a TV Digital deve chegar também a Salvador e a Florianópolis.

Para a RBS TV, do Rio Grande do Sul, a expectativa é de ganho em qualidade. “Na nossa interpretação, estamos levando à televisão a mesma portabilidade do radinho de pilha. Agora vamos ter a televisãozinha de pilha. E isso é uma vantagem muito grande, até porque esse serviço é gratuito, diferente de outros países onde é preciso pagar por ele”, afirma Paulo Tonet Camargo, diretor geral e institucional do Grupo RBS em Brasília. Paulatinamente, garante o empresário, uma série de outros serviços poderão ser agregados, como informações sobre a programação, por exemplo.

Sobre os altos preços dos conversores para a TV digital, Tonet compara: quando lançaram a TV a cores no Brasil, no início da década de 1970, os primeiros aparelhos custavam o preço de um automóvel. Hoje, um aparelho analógico custa em torno de R$ 500,00.

“Como em tudo, precisa de escala de produção para começar a diminuir o preço. Isso leva um tempo. Por isso, o governo federal deu o prazo de 10 anos para a migração. A televisão brasileira como um todo está iniciando a implantação da sua plataforma digital. Nós ainda estamos tateando”, afirmou Tonet.

Contra a corrente

No lançamento da TV digital em Porto Alegre, o ministro Hélio Costa destacou: “É uma grande revolução dos meios de comunicação. Não só pela belíssima imagem de alta definição, mas porque traz um componente que é fundamental para os dias de hoje: a interatividade”.

Entretanto, enquanto as emissoras de televisão investem pesado na tecnologia, high definition (HD), o público vai migrando da TV para a internet. Apesar de ainda dominar a atenção nacional como veículo de comunicação, é fato que as audiências na televisão vêm caindo no País (leia).

Por outro lado, na internet o acesso só faz aumentar. Os meios audiovisuais na web têm sido cada vez mais buscados e explorados, mesmo com definição de imagem muitas vezes pouco razoável — porém com muitas possibilidades de interatividade, quesito preterido neste momento na TV.

“São coisas diferentes. O grande meio popular de entretenimento e de informação ainda é a televisão. Embora a internet entre muito fortemente, ela não é um meio livre, é um meio pago”, argumenta Tonet.

Para o executivo da RBS, o investimento na televisão digital, nas novas tecnologias, é uma crença em que a “televisão livre, aberta e gratuita” durante muitos anos ainda vai ser um importante meio de informação. “Claro que a convergência é uma realidade, mas se nós não avançarmos tecnicamente nesse meio, em uma televisão, aí sim nós estaremos correndo risco de não ter, por exemplo, a interatividade como um valor agregado para oferecer ao nosso telespectador”.

De um modo geral, há um grande esforço das grandes emissoras (as que têm recursos financeiros para comprar os equipamentos) em se equiparem e fazer a transferência da tecnologia. Porém, está claro que, para os radiodifusores, neste momento, a ausência da interatividade na TV digital não é um problema.

“Ainda não existe um modelo de negócios que considere a questão da interatividade. Mas, sem dúvida, este é um requisito muito importante para a sociedade”, destaca Berenice Mendes, lembrando, por exemplo, que esta seria uma possibilidade de inclusão digital por meio da televisão.

“Quando a sociedade brasileira foi excluída do debate sobre a opção do modelo da digitalização, nós do FNDC, reclamávamos que antes disso deveríamos discutir qual TV e que conteúdo queríamos. E, a partir daí, ver qual modelo seria o mais adequado. Mas isso não aconteceu. Foi uma derrota da sociedade”, lembra a cineasta.

Ela avalia que, ao priorizar o aspecto tecnológico, não veremos grandes transformações. “Eu não acredito que em curto prazo as potencialidades possam ser conhecidas e apropriadas pela população. Particularmente, me sinto muito frustrada com a implantação da TV digital no Brasil. Está muito diferente do que poderia ser, com muito menos força”, julga Berenice.

Conversores atuais não suportarão interatividade

Técnicos salientam que os receptores mais baratos muitas vezes não têm condições de fornecer a alta definição — somente limpam a imagem e o som de eventuais ruídos. Além disso, dos aparelhos oferecidos no mercado atualmente, poucos serão compatíveis com os middlewares e softwares de interatividade — único recurso que faria diferença sobre a tecnologia japonesa ISDB-T (Integrated Services Digital Broadcasting Terrestrial) — apesar de haver um grande esforço de mercado nesse sentido.

Isso significa que quem comprar receptores neste momento precisará adquirir outro mais adiante, quando a interatividade for possível. Assim, além de caros, os set-top box atuais estarão desabilitados para este ganho.

Para que aconteça a interatividade na TV digital, os pesquisadores precisam ainda concluir o desenvolvimento do middleware que realizará o transporte do protocolo de informações embarcado nos conteúdos de áudio e vídeo. O vice-presidente do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (SBTVD), Moris Arditti, declarou, na última semana, à revista Época Negócios (leia), que a interatividade chega à TV digital no primeiro semestre de 2009.

Pesquisadores do setor explicam que a demora para a especificação do middleware está numa combinação de fatores que vai desde o desinteresse dos radiodifusores pelo assunto (porque não definiram políticas para um novo modelo de negócios), até as dificuldades técnicas e de propriedade intelectual. O fato é que, quanto mais tempo demorar para uma tomada de decisão, maior será o numero de aparelhos comercializados sem essa funcionalidade, criando um problema econômico e financeiro para a implantação da função interatividade.

“Se a gente considerar a TV digital que está sendo implantada efetivamente, ela traz uma melhora na qualidade visual, uma qualidade de resolução para quem dispõe dos recursos. Mas ela não é, como poderia ser, uma TV revolucionária”, enfatiza Berenice Mendes.

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